A Criança,Toda a criança.Seja de que raça for,Seja negra, branca, vermelha, amarela,Seja rapariga ou rapaz.Fale que língua falar,Acredite no que acreditar,Pense o que pensar,Tenha nascido seja onde for,Ela tem direito…… A ser para o homem aRazão primeira da sua luta.O homem vai proteger a criançaCom leis, ternura, cuidadosQue a tornem livre, feliz,Pois só é livre, felizQuem pode deixar crescerUm corpo são,Quem pode deixar descobrirLivrementeO coraçãoE o pensamento.Este nascer e crescer e viver assimChama-se dignidade.E em dignidade vamosQuerer que a criançaNasça,Cresça,Viva……E a criança nasceE deve ter um nomeQue seja o sinal dessa dignidade.Ao Sol chamamos SolE à vida chamamos Vida.Uma criança terá o seu nome também.E ela nasce numa terra determinadaQue a deve proteger.Chamemos-lhe Pátria a essa terra,Chamemos-lhe antes Mundo……E nesse Mundo ela vai crescer.Já sua mãe teve o direitoA toda a assistência que assegura um nascer perfeito.E, depois, a criança nascida,Depois da hora radial do parto,A criança deverá receberAmor,Alimentação,Casa,Cuidados médicos,O amor sereno de mãe e pai.Ela vai poderRir,Brincar,Crescer,Aprender a ser feliz……Mas há crianças que nascem imperfeitasE tudo devemos fazer para que isto não aconteça.Vamos dar a essas crianças um amor maior ainda.E a criança nasceuE vai desabrochar comoUma flor,Uma árvore,Um pássaro,EUma flor,Uma árvoreUm pássaroPrecisam de amor – a seiva da terra, a luz do Sol.De quanto amor a criança não precisará?De quanta segurança?Os pais e todo o Mundo que rodeia a criançaVão participar na aventuraDe uma vida que nasceu.Maravilhosa aventura!Mas se a criança não tem família?Ela tê-la-á, sempre: numa sociedade justaTodos serão sua família.Nunca mais haverá uma criança só,Infância nunca será solidão.E a criança vai aprender a crescer.Todos temos de a ajudar!Todos!Os pais, a escola, todos nós!E vamos ajudá-la a descobrir-se a si própriaE os outros.Descobrir o seu mundo,A sua força,O seu amor,Ela vai aprender a viverCom ela própriaE com os outros:Ela vai aprender a fraternidade,A fazer fraternidade.Isto chama-se educar:Saber isto é aprender a ensinar.Em situação de perigoA criança, mais do que nunca,Está sempre em primeiro lugar…Será o sol que não se apagaCom o nosso medo,Com a nossa indiferença:A criança apaga, por si só,Medo e indiferença das nossas frontes…A criança é um mundoPreciosoRaro.Que ninguém a roube,A negoceie,A exploreSob qualquer pretexto.Que ninguém se aproveiteDo trabalho da criançaPara seu próprio proveito.São livres e frágeis as suas mãos,Hoje:Se as não magoarmosElas poderão continuarLivresE ser a força do MundoMesmo que frágeis continuem…A criança deve ser respeitadaEm suma,Na dignidade do seu nascer,Do seu crescer,Do seu viver.Quem amar verdadeiramente a criançaNão poderá deixar de ser fraterno:Uma criança não conhece fronteiras,Nem raças,Nem classes sociais:Ela é o sinal mais vivo do amor,Embora, por vezes, nos possa parecer cruel.Frágil e forte, ao mesmo tempo,Ela é sempre a mão da própria vidaQue se nos estende,Nos seguraE nos diz:Sê digno de viver!Olha em frente!
« Os Direitos da Criança », de Matilde Rosa Araújo,
In As Crianças, Todas as Crianças,
Livros Horizonte, Lisboa, 1979.